‘ADEUS’
As piores despedidas são as inexistentes. Os piores adeuses são os que você não teve a oportunidade de pronunciar.
É doloroso demais para quem não os escuta.
Poder ouvir um último suspiro é importante. Mais, inclusive, do que o primeiro choro de vida proferido. E quantas vezes em seu decorrer não morremos sem termos nos despedido, possuindo tal oportunidade?
As pessoas que por nossas vidas passam, chegam sem avisar e em nossos corações e cotidianos, depositam suas marcas. Transformam-se em gente importante para nós e, em alguns bons casos, seguem adiante sem ao menos se despedirem daqueles que deixarão para trás, correndo o risco e permitindo que nós corramos os nossos de nunca mais nos vermos.
Morreram, mesmo estando vivas.
E a dor dessa perda pode até ser substituída por novas pessoas que acabam por ocupar as vagas abandonadas em nossos corações. Tal como as que seguiram suas vidas, seguimos as nossas sem suas companhias.
Mesmo assim, doloroso demais.
O meu maior desgosto é que Deus, na realidade, não exista, privando-me assim do prazer de o insultar mais positivamente.
QUE TIPO DE PAI SEREI?
Não que eu queira, no ar de meus 24 anos, pensar em ter filhos. Mas, caso o destino me amaldiçoasse abençoasse com uma cria, que tipo de pai eu seria?
E disso, eu bem sei.
Conheço-me bem. Eu seria aquele pai que adentraria na balada quando meu filho tivesse 14 anos porque o desgraçado falsificou a carteira de identidade, e logo começaria a gritar dizendo que o moleque era menor.
Eu seria aquele pai que levaria um grupo de dançarinas de axé com o nome do meu filho estampado na bunda dos mini-shorts no dia do aniversário dele na escola em que ele estuda, só para cantar parabéns.
Eu seria aquele pai que jogaria videogame com o guri e o poria de castigo caso ele ganhasse de mim em Need for Speed.
Eu seria aquele pai que FARIA QUESTÃO de lecionar educação sexual pro moleque utilizando camisinha e pepino como demonstrativo.
Eu seria aquele pai que estipularia horário de volta no Sábado a noite e, caso o guri não voltasse na hora, eu caçaria ele em todas as baladas da cidade gritando pelo seu nome.
Eu seria aquele pai que pegaria o garoto vendo vídeos pornô na internet e o forçaria a assistir ao meu lado todo o filme, explicando que nada daquilo é verídico.
Eu seria aquele pai que daria uma mesada por ano.
Eu seria aquele pai que viraria melhor amigo dos amigos do meu filho e chamaria todos eles pra jogar video game e deixaria o guri estudando de castigo, só pra garantir a vaga dele na universidade enquanto distraio seus colegas.
Eu seria aquele pai que vasculharia o quarto do guri por inteiro enquanto ele estivesse na escola, só pra saber se ele está usando drogas ou fumando. E caso descobrisse algo, faria o moleque perder os pulmões de tanto fumar, ou furar o próprio palato de tanto cheirar. Vagabundo desgraçado!
Eu seria aquele pai que seguiria o meu filho em TODAS as redes sociais existentes.
Eu seria aquele pai que seria o melhor amigo dos amigos do meu filho.
Eu seria aquele pai que exigiria notas todas acima de 9 no boletim. E que bateria no moleque se viesse nota inferior.
Eu seria aquele pai que teria a “cinta da educação” exposta num quadro na maior parede da sala, só para causar temor no moleque.
Eu seria aquele pai que chegaria buzinando quando estivesse perto do horário de pegar o meu filho no colégio, só pra ele suplicar ir e voltar de ônibus da escola.
Enfim, eu seria esse tipo de pai.
Portanto, solicito ao futuro que não me abençoe com uma cria.
Pelo bem dela.
GABRIELA
Debruçada sobre a sacada de um apartamento, tragava seu cigarro. Observava, diante de inúmeras janelas acesas, a vida de tantas outras pessoas das quais talvez jamais conheceria em vida. E pensava: “Quantas pessoas estariam se drogando neste exato momento?”.
A jovem, pálida e de maquiagem carregada, retirou de sua bolsa um pequeno frasco que continha um pó branco. Cocaína. Depositou parte dele sobre a mureta da sacada e, com seu cartão de crédito, fez uma linha que seria aspirada com uma nota de dinheiro enrolada.
Sentia-se gorda e a cocaína lhe ajudaria emagrecer, assim como os vários remédios decorrentes da automedicação que conseguia comprar sem receita em determinadas farmácias da cidade.
Ainda assim, padecia de anemia e foi diagnosticada com grau avançado de anorexia. E seu corpo não deixava mentir: há meses já não mais menstruava.
Sua inspiração? Mahatma Gandhi. E lógica havia sobre tal escolha: “Tratava-se do precursor da anorexia moderna e sua força de vontade levou a Índia à independência”.
Se Mahatma Gandhi faminto levou a Índia à se desvincular da Inglaterra, aquela adolescente de cabelos loiros quase acinzentados conseguiria se tornar a garota popular do colégio com seu corpo invejável de estética longilínea.
Para manter-se “esbelta”, submetia-se a uma séria dieta rica em inibidores de apetite e cafeína. Alimentava-se reduzidamente em dias alternativos, fumava demasiadamente, bebia muita água e cheirava a máxima quantidade de pó que suas narinas conseguiriam aspirar. Em poucas semanas reduziu drasticamente a numeração de seu guarda-roupa e, para evitar o aspecto cansado, maquiava-se pesadamente todos os dias. “Gisele Bünchen sentiria inveja”.
E não apenas Gisele. Todas as garotas já demonstravam ar invejoso. Rapazes que antes mal a notavam, passaram a repará-la. Seu status acadêmico ascendia a crescimento econômico chinês. Em poucas semanas, todos sabiam quem era Gabriela.
Gabriela… A vadia que todas desejavam ser e que todos desejavam comer. Que deixou de ser mera CDF sentada na carteira do canto para uma das garotas mais populares do Colégio Britânico St. Paul’s.
Mas seu reinado duraria pouco. Sua compulsão pela magreza também era a sentença de morte de uma vida tão jovial. Desmaios se tornaram cada vez mais frequentes decorrente da falta de nutrientes que seu corpo precisava. E numa noite fria de julho, dormiu para não mais acordar.
Ao menos não em São Paulo.
FIEL
Sabe, eu não traio. Nunca traí.
É fato que me envolvi profundamente poucas vezes. Duas, se contar o erro que foi meu primeiro amor. Mesmo assim, nunca traí. E até mesmo já fui condenado por isso.
Quando foi que a sociedade deixou de valorizar o sentimento alheio em prol da individualização do próprio?
Vejo os comerciais de margarina. Todos tão belos, invejados e, ao mesmo tempo, tão distantes das realidades que presencio diariamente.
Nunca traí. Orgulho-me disso. Não apenas por considerar o sentimento e a expectativa alheios, mas também por respeito próprio, entende?
Não, não entende.
Não entende porque você com certeza deve ser mais um daqueles que trai, já que considera a lacívia momentânea mais do que a construção conjunta de um relacionamento duradouro, fiel e monogâmico. Não entende porque a cabeça de baixo é aquela quem define as regras do jogo, enquanto a de cima só existe para decoração ambiente.
E não, isso aqui não é discurso religioso. Poupe-me se você pensar o contrário.
Fico me perguntando em que momento dos anos 80 ou 90 (ou até mesmo 2000), a sociedade passou a considerar a fidelidade e a monogamia algo tão careta. Em verdade, pergunto-me quando a sociedade passou a considerar a coletividade algo tão careta.
E soa contraditório. Afinal de contas, como um conjunto de seres pode considerar a individualidade maior do que a própria coletividade?
Não, não sou moralista. Pouco me importo se você é casado e fode com a vizinha, ou até mesmo dá a bunda para o irmão da sua esposa. Também estou pouco me lixando se você transa com o próprio filho ou se namora numa relação aberta por desacreditar na monogamia e na fidelidade como a conhecemos nos filmes de Sessão da Tarde.
Sei que, tanto quanto considero as expectativas e sentimentos alheios, durmo de consciência tranquila ao anoitecer por saber que, por mais um dia, fiel fui.
E não, não é fácil ser fiel. Muito menos em São Paulo. Talvez por isso mesmo eu me sinta tão orgulhoso.
Você pode não acreditar (e pouco estou ligando para isso, inclusive), mas eu fui numa balada sem a presença do meu amor. Fui cantado seis vezes em menos de duas horas e por pessoas de fazer todo o trânsito da capital paulista parar só para apreciar suas belezas físicas e, mesmo assim, não traí. Dispensei com a educação que todos merecemos e expliquei que não poderia decepcionar quem amo, assim como menosprezar os princípios que regem minha consciência.
Não me arrependo, pois dormirei de consciência tranquila. E isso, beleza alguma sustenta. Da mesma forma, sinto que, se fosse o meu amor que estivesse ali, em meu lugar, faria a mesma coisa (pois do contrário não a namoraria, concorda?).
Uma pena eu ser raridade.
Mais ainda, uma pena a maioria de vocês, que me leem, não entenderem, não viverem, não sentirem, não saberem, não considerarem ou muito menos presenciarem o momento em que alguém sustenta em alto e bom som a felicidade de ter outra pessoa consigo, numa das muitas noites onde todos procuram nas baladas e bares alguém para assistir um DVD juntos, dormir de conchinha ou receber um cafuné enquanto relata seus dias.
A sociedade que valoriza a putaria é a mesma que padece pela inveja ao ver alguém feliz por viver eternamente um comercial de margarina, enquanto essa eternidade durar.
E no fim, transformam-se num bando dos muito comuns idosos solitários que vivem em apartamentos de 30m² e que se relacionam com plantas e/ou gatos, já que não se preocuparam em procurar alguém na época em que poderiam se dedicar a isso.
Fácil é aproveitar a promiscuidade que a beleza estética da tenra idade nos agracia. Difícil é fazer valer a construção de um relacionamento em todos os seus princípios e virtudes. Você não é homem por comer várias garotas num único mês. É homem por conseguir comer apenas uma e, durante todo o mês, fazer com que ela não deixe de pensar em você.
Enfim, fiel por mais um dia. E que venham tantos outros.
É o meu tapa diário na cara da sociedade.
E na sua cara, também.
Plumb - In My Arms
(Kaskade Extended Mix)
Source: soundcloud.com
Somewhere, por Miadox
UM CONTO PAULISTANO
O vento uivava entre os inúmeros prédios que muravam a avenida. Postes de iluminação substituíam lugares que antes era ocupado por árvores.
Corações cimentados de sentimentos pulsando em corpos desprovidos de companhia. Almas solitárias que se trombam diariamente num grito suplicante de silêncio ensurdecedor pelo calor de um sorriso alheio. É São Paulo, em toda a sua glória e ausência dela.
Um jovem, filho dessa indiferença, é surpreendido pelo novo e até então desconhecida cor que pintava a calçada cinza.
A garota, de cabelos vermelhos e pele delicada, buscava algo diferente em sua máquina fotográfica. Mas até o verde do Parque Trianon não era vívido como esperava.
Era nova ali. Era turista, decerto. Impressionada pela visão púdica que os reflexos dos espelhados prédios novos e antigos da Avenida Paulista lançavam sobre seu olhar.
O jovem, por minutos embasbacado pela imagem inédita que ali presenciava, não sabia bem o que fazer.
Então a jovem o fez.
- Por favor, será que poderia tirar uma foto minha com vista para a Avenida?
“Por favor”. Palavras de significado singular. Gentileza numa cidade hostil.
- Er… Claro…
Deixou sua pasta apoiada em suas pernas. Pegou a câmera e tão logo a fotografou. Uma pena tal imagem ficar contida em algo que não seu.
- Obrigada.
“Obrigada”. Óbvio que não era paulistana.
Entregou-lhe a câmera sem desgrudar o olhar do fascínio que aquela garota o causara.
Ela se foi. Levou consigo o brilho que carregava e, junto dele, a atenção que o garoto paulistano até então desconsiderava. Sentimentos afloraram ali. E sem saber administrá-los, perdeu a oportunidade de conhecer mais aquela turista ruiva de sorriso único.
Nunca mais a viu.
O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas.
Sentimos a dor mas não a sua ausência.
O FIM DA HISTÓRIA
Eu vou contar pra vocês o fim de uma história. De uma história que não teve começo, só meio e fim. Por que quando todos pensavam que ela se iniciou, na verdade desenrolava há tempos.
Mas nem tanto.
Quando o mundo pensava que os dois se conheceriam, era mentira mal contada porque ambos já se conheciam. E como se conheciam. Sabiam do que o outro gostava e do que desgostava, do que comiam e do que não comiam, do que ouviam e do que detestavam. Por vezes, acidentalmente, diziam “eu te amo” sem sequer saberem de fato amar um ao outro.
Essa história diz respeito ao fim do que não começou. Ao fim do que não pode começar. Eram felizes, ainda que não soubessem do que a felicidade se constituía. Eram apaixonados, ainda que tal paixão fosse confundida com tesão. Eram vinteanistas. E como tais, eram jovens amantes despreocupados e descobridores. De sentimentos mil em corações de sangue anil.
Mas eram novos demais.
Se amavam um ao outro, não amavam mais do que a si próprios. Queriam algo mais, mas não queriam algo além de tão mais. Queriam exclusividade, desde que ela fosse apenas do outro. Eram novos demais para entender fidelidade. E eram velhos demais para continuarem a vida que os encaminhara até ali.
Eis que um tomou a iniciativa. Buscava um ponto final num relacionamento que sequer tinha parágrafo ou verso. Simplesmente queria liberdade de uma prisão que não lhe pertencia, de uma cela que não era sua. E nem prisão ou cela eram.
A outra queria um tempo, uma vírgula e não um ponto. Precisava se entender primeiro para depois entender o sentimento do outro. E não sabia sequer por onde começar. Era difícil, era complicado, era mulher e era assim. Sabia apenas que era assim.
Ele chegou, ela ouviu. Ambos choraram e, no fim, sequer se entenderam. Talvez porque não tinham o que entender.
Nem tudo é entendível.
Ele se foi, ela se foi. Ele sentiu sua falta e ela o mesmo com relação a ele. Mas era fim, era ponto. Não era vírgula e nem espaço. Foi-se o tempo que poderiam aproveitar os bons tempos. E agora? Quais tempos virão? Ambos não sabem. E nem saberão. Não devem saber. Mas apenas o tempo dirá se o tempo que passaram juntos foi bom ou não.
Era fim. Era o fim da história deles.
The Cataracs - Top of The World (House Remix)
Source: soundcloud.com
O STATUS DO RELACIONAMENTO DO FACEBOOK
Você é solteiro. Sempre foi. Malemá namorou por um ou outro verãozinho insosso, enquanto estava na cidade dos seus avós (aquela mesma, de 20 mil habitantes) e conheceu alguém que transpirava o caipirismo do lugar.
Noutras palavras, namorou porque a competitividade local era baixa demais para a pessoa poder selecionar alguém melhor.
Mas a verdade é que você está aí, com seus vinte-e-poucos anos, trabalhando igual um escravo do período colonial para ganhar aquele mísero salário de recém-graduado pelo qual você justifica seu valor através do mote “adquirir conhecimentos é que é a prioridade aqui” e algo te incomoda. Sempre te incomodou.
O status do relacionamento do Facebook.
Por que todos os seus amigos e amigas já o modificaram no decorrer dos anos em que esse site de relacionamentos existe, exceto você. Todos já mudaram do statos ‘solteiro’ para ‘em um relacionamento sério’. E isso te corroi. A impossibilidade de você não ter feito o mesmo até então te sufoca e afoga seu íntimo naquele mar desesperançoso que aumenta a cada dia que passa e seu aniversário se aproxima.
Por que o tempo não volta. E você está envelhecendo diariamente. Quem vai querer namorar um velho. E assim você ficará para sempre condenado à cláusula pétrea do status ‘Solteiro’ que o Facebook te obriga a declarar publicamente.
Mas você é despojado (ou ao menos tenta transparecer). É brincalhão e, para tentar amenizar sua dor, muda, mesmo que de forma mentirosa, o status do relacionamento para algo do tipo ‘Em um relacionamento sério com o TRABALHO” ou “Em um relacionamento sério com a MONOGRAFIA”.
Não faça isso.
Que seu sofrimento é grandioso, todos compreendemos. Mas não o externalize. Seus amigos não precisam saber que seu desespero transpira pelos poros de sua pele e que você está tão carente de alguém que já pensou seriamente em se declarar para seu bicho-de-estimação ou para aquela boneca inflável ou dildo que você esconde dos seus pais no fundo do armário. Invista mesmo no lado profissional, mas não externalize que só ele importa para a sua vida, mesmo que ela se resuma ao mundo virtual.
Não satisfeito, você então compra aquele jogo. Sim, porque conseguir namorar no The Sims é muito mais fácil do que na vida real. Você possui toda a lista de ‘cheats’ para fazer os avatares gostarem de você como se fossem todos gays e você a Lady Gaga da vizinhança. Eles te desejam, te veneram. Você é tudo ali e para todos está. Namora com um, cansa, namora com outro, casa, tem filhos, trai sua esposa ou esposo (porque você nunca pode namorar e, então, nunca teve a oportunidade de surgir a opção ‘trair’ na sua vida), e assim você ameniza a dor que habita em seu coração real.
Os anos passam, e agora você tem 38 anos. É um profissional de respeito na empresa e um solteiro deplorável na vida.
Como medida de socorro, paga prostitutas e prostitutos não apenas para fazerem sexo contigo. Você quer companhia, também. Paga pela hora deles e paga o ingresso e a pipoca do cinema. Eu sei que você já fez isso. E eu sei que vocês vão ver aquele filme (qualquer filme) em que a Keira Knightley é a protagonista. Por que é sempre drama, você sempre chora e, quando o filme termina, é o garoto-de-programa quem está te consolando pela vida amorosa deplorável que você carregou até então.
E os anos passam. Por que só passam.
Sem filhos, sem netos e até aquela sua irmã gorda ou seu irmão que você jurava ser gay já estão casados e pais. Nos próximos anos, talvez tornem-se avós.
Mas não você. Você sequer começou. E já estamos em 2064.
Assim, a Apple lança no mercado o iLover. Sim, aquele robô pessoal que diz ‘Te amo’ toda vez que você olha pra ele. Ele é completo, ainda que dali seis meses a empresa lance a segunda versão da máquina.
Como eterno applemaníaco que você sempre foi, é claro que você terá um deles. E ele faz tudo o que você precisa. Desde amor eterno até trocar a sua fralda geriátrica de forma feliz e eficaz. O mercado dos solteiros frustados é um excelente investimento num mundo individualista como o nosso e as empresas sabem disso. Logicamente que o iLover seria um sucesso, assim como você um consumidor óbvio do produto.
E ele tem até registro no cartório, com nome, data de aniversário e tudo o mais <3
Claro que você se sentirá feliz. Felicidade comprada também é felicidade.
E finalmente dessa forma, você conseguirá mudar o status do relacionamento do seu Facebook.
Só que, em 2064 não será mais o Facebook o site de relacionamentos da vez.
Mais uma mágoa para a vida.
JANELAS ALHEIAS
Chove e, por isso, muita gente fica em casa no fim-de-semana. O medo de se molhar se equipara ao de morrer. Gotas venenosas de uma chuva aleatória num sábado a noite. Sufocante, não?
Edifícios mais iluminados. Verdadeiras árvores-de-natal fora de época contrastando com as gotas de veneno choradas do Céu de São Paulo. Eu aqui, curtindo a minha tosse e minha gripe; e você aí, em uma das centenas ou milhares de janelas ao redor de minha sacada.
Estaria você comemorando uma festa de aniversário dos seus filhos onde 2/3 dos convidados provavelmente não compareceram em decorrência da chuva que Veneziou São Paulo? Estaria você assistindo televisão? Estaria você torcendo pelo esparsamento das nuvens? Estaria você transando? Estaria você lendo um livro? Estaria você enfurnado na Internet? Estaria você cheirando cocaína?
Pouco importa. Você está aí e eu cá, separados pelo veneno de São Pedro e pelo mar intransponível que a avenida 9 de Julho se transformou.
A chuva não cessa. E ainda bem, por mim, que não. Alivia-me da obrigação auto-imposta de sair todo fim-de-semana nesta cidade. Minha consciência exige que meus 24 anos sejam vividos para além das janelas do apartamento, mesmo que adoecido eu esteja. Mas a chuva seria uma excelente desculpa para não sair.
E não saio.
E nem você.
Por isso volte a fazer o que estava fazendo e me deixe te observar.

